quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O néctar lusitano


No século XI, conventos portugueses iniciaram a comercialização do vinho excedente. Eram os primórdios da expansão do vinho produzido junto ao Douro


Para um português, falar sobre vinho é, acima de tudo, abordar um dos produtos que, ao longo da história, mais contribuíram para que, o país fosse conhecido comercialmente no exterior. Não é menos verossímil afirmar que um amante do estudo do passado não pode deixar de sentir-se atraído pela atividade vinícola, tendo em conta que foi algo a que, de forma paralela, o labor de muitos portugueses – homens e mulheres – tornou possível paladares tão famosos quanto o mundialmente famoso Vinho do Porto e, com isso, fizeram História. Apesar de alguma polêmica quanto a uma datação anterior, é normalmente aceito que o Império Romano foi a entidade responsável por uma proliferação do vinho por todo o continente europeu. A Península Ibérica, e Portugal, em concreto, não seriam exceção. Estudos arqueológicos revelam que o homem proto-histórico desta zona consumiria uma bebida fermentada, quiçá o mais remoto antepassado da cerveja. Ainda assim, os romanos exportariam a tão apreciada bebida ou os ricos proprietários que se deslocaram para a atual zona de Portugal confeccionavam, dentro dos seus terrenos, o néctar escarlate. O famoso cronista de então, Estrabão, revela no seu que existia na região um consumo de vinho, ainda que, no seu entender, de confecção rudimentar.

Ora, uma indústria vinícola tem de ser de origem posterior. Os relatos são escassos. Perto do século XI começam a surgir as primeiras referências, em documentos coevos, à produção de vinho com o intuito de venda do excedente. Ou seja, alguns conventos da zona norte de Portugal davam início a uma transação do produto que se revelaria os primórdios da expansão do magnífico vinho produzido junto ao rio Douro.

A título de curiosidade, a produção de cerveja parece ter surgido, tal como o vinho, de forma semi-industrial nas comunidades conventuais, atendendo a que, na época pascal o consumo vinícola era proibido, havendo pois, a necessidade de se encontrar um substituto. Isto apesar de a cerveja, considerada bebida pagã – por ter sido trazida dos povos definidos como “bárbaros” pelos cronistas da época – ter demorado um longo tempo até ser aceita pela população como de consumo corrente.

Com o passar dos séculos, o vinho, extraída a partir do sumo de uvas de grande qualidade, tornou-se popular em diversos países, com particular destaque para os mediterrânicos, onde ela era particularmente apreciada. Do claustro conventual, a produção tornou- se mais abrangente e, por todo o país, surgiram castas regionais que têm vindo a cativar clientes por todo o mundo, com particular destaque para o anteriormente referido vinho armazenado nas caves de Vila Nova de Gaia (conhecido por “do Porto”), ainda que exista grande nobreza nos chamados vinhos de mesa nacionais. Convém aqui referir, igualmente, a importância da questão religiosa na expansão vinícola. Como se sabe, a celebração eucarística do catolicismo encara o vinho como representação simbólica do sangue derramado por Jesus Cristo para remissão dos pecados da Humanidade.

É, portanto, perfeitamente normal que dentro de um panorama ocidental a bebida tenha tido maior oportunidade de ser conhecida e reconhecida. Mas nada disso afasta, naturalmente, o paladar intrínseco e qualquer degustação vive, sobretudo, de um jogo de sensações únicas que os apreciadores do néctar não hesitam em descrever. No que a qualidade do vinho diz respeito, Portugal tem, sem sombra de dúvida, uma importante palavra a dizer no panorama internacional.


Fonte: http://revistaadega.uol.com.br (Pedro Silva, escritor português.)

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