sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Descodificar a linguagem do vinho



O que é um vinho tinto com aroma a frutos vermelhos maduros, notas de madeira e boa estrutura de taninos? Um néctar indecifrável? Então esta é uma boa oportunidade para alargar o seu vocabulário.


Muitos são aqueles que entram num supermercado à procura de um bom vinho e tudo o que conseguem é ficarem indecisos, a tentar decifrar o que está escrito nos contra-rótulos das garrafas. Frases do tipo «Vinho tinto com aroma a frutos vermelhos maduros, notas de madeira e boa estrutura de taninos» ou «Vinho branco encorpado, sugerindo aromas a melão, pêssego e mel» podem ser capazes de provocar um ataque de nervos a qualquer leigo na matéria. 

Apesar do consumidor estar cada vez mais esclarecido sobre as características que pode ter um vinho, de haver maior divulgação, eventos e cursos de formação, a maioria ainda não está preparada para entender um vocabulário tão elaborado. Por outro lado, há também contra-rótulos mais simples, que contam a história do local e da região onde o vinho foi produzido ou a razão pela qual lhe deram determinado nome. De uma maneira ou de outra, é o mesmo que dizer que quem não entende de vinho, pouco ou nada continua a fazer. No passado as garrafas tinham apenas a informação da marca, capacidade e grau do vinho. Só entre os anos 70 e 80 é que se viu surgir o novo conceito do contra-rótulo, um passo que veio contribuir para a evolução da informação junto do consumidor. No entanto, apesar de apelativa, a linguagem nem sempre é objetiva porque é muito técnica. «Na minha óptica considero que um bom rótulo deve dizer de que região é o vinho, que características o definem, a sua relação com as iguarias e qual a temperatura a que deve ser servido, de forma a tornar a informação mais perceptível» explica Mário Louro, enólogo e professor de vinhos.


O nascer de uma linguagem apropriada

Se é verdade que os grandes produtores se preocupam mais com o marketing ao redor do vinho, e em utilizar maior objetividade, na maior parte dos casos, o mesmo não se aplica. O consumidor não tem, por isso, outro remédio senão informar-se mais, ler sobre o tema ou mesmo tirar um curso de formação para aprender noções básicas. 

O nascimento de uma linguagem adequada para a caracterizar o vinho não é de hoje. Alguns historiadores afirmam haver indícios de ter surgido durante a civilização grega. Outros assumem o século XVIII como data oficial de nascimento e difusão de um vocabulário mais cuidado, devido á necessidade sentida pelos «vendedores-provadores» franceses de hierarquizar as classes dos vinhos existentes conforma a sua qualidade. Para negociar os saborosos néctares à sua guarda, nada melhor que comunicar o prazer que se sentia ao bebê-los. 

Se atualmente se pode caracterizar a riqueza crescente de um vinho bem constituído como sendo «carnudo», «gordo» ou «redondo», ou o o gosto doce crescente como sendo «pastoso», «meloso» ou «feminino», entre muitas outras metáforas gustativas do mesmo gênero, no passado tudo parecia bem mais complicado. Primeiro porque as palavras utilizadas na linguagem do vinho existiam em menor número, provocando como consequência uma fraca classificação do mesmo. Depois, porque a criatividade utilizada para falar das sensações nem sempre era muito elucidativa. Que o diga Rabelais, escritor satírico e humorista francês do século XVI, que um dia, ao reunir toda a sua inspiração e erudição, classificou um dos néctares que apreciava como um «vinho de tafetá»!




Brincar com as Palavras

Graças à evolução do conhecimento sobre a composição do vinho e suas transformações, o vocabulário viria a enriquecer-se com muitas expressões ao longo do século XIX, conhecendo-se na altura mais de cento e oitenta. Hoje, ultrapassam o milhar e qualquer provador informado as utiliza para expressar as suas sensações da forma mais clara e objectiva possível. No entanto, pode tender a brincar com as palavras, esticando ou mesmo desviando, num sentido figurado, o seu significado. Aliás, a imaginação é um fator que - coordenado com alguma sabedoria - é necessário, já que não é só na definição da estrutura do vinho que os inexperientes se sentem perdidos. Nos aromas, a confusão também se instala. Afinal, encontrar fragrâncias como pêssego, mel, cereja, feno ou suor de cavalo num vinho parece coisa impossível. Mas não é: «A maioria das pessoas pensa que, por exemplo, o aroma a suor de cavalo está ligado a uma determinada região. Mas não. Ele tem a ver com as madeiras velhas utilizadas no processo de estágio do vinho que podem arrastar aromas menos positivos» elucida Mário Louro. Assim com o os aromas a especiarias, como a noz moscada ou o tomilho, podem ser encontrados em vinhos muito maduros pelo sol e os aromas a vegetais, como o dos cogumelos, são próprios de vinhos tintos conservados durante muitos anos em garrafa. 

Nos aromas frutados, muito encontrados em vinhos jovens, o perfil de substâncias aromáticas pode ser semelhante a qualquer fruto de grainha ou caroço. Quanto aos florais, têm a ver com a maceração pelicular que se dá no álcool. Émile Peynaud, autor do livro «O Gosto do Vinho», explica por outras palavras que «certos vinhos brancos cheiram a flor da vinha e, por extensão, a outros aromas florais. A uva verde, pelo contrário, tem um aroma herbáceo, a folha verde. Quando se faz o envelhecimento de um vinho obtido a partir de uvas não completamente amadurecidas, o aroma verde murcha, pelo que o vinho cheira a tisana, a feno ou a ervanária». Como curiosidade, é bom ficar a saber que nem os copos escapam a este vocabulário. Se não forem devidamente lavados e secos podem apresentar odores desagradáveis a «armário» ou «cartão», que podem alterar as características do vinho. 

Já sabedor destes novos conhecimentos, aliados a alguma leitura útil sobre a matéria, pode atrever-se a convidar alguns amigos para jantar e passar por erudito ao dizer uma frase do tipo: «Vou servir-vos este vinho de aromas complexo a frutos vermelhos maduros e a madeira. E, quando beberem o primeiro gole, reparem como na boca se revela macio, redondo, com suaves taninos e um final de boca prolongado…»!


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