quarta-feira, 25 de setembro de 2013

É possível compensar a pouca latitude com maior altitude nos vinhedos?


Kerry Damskey é um sujeito daqueles que acredita que tudo é possível. Desde que haja vontade para fazer as coisas. E dinheiro para financiá-las. Dono de uma pequena propriedade no Napa, Estados Unidos, ganhou notoriedade quando cruzou o Pacífico e foi virar consultor da Sula Vineyards, importante vinícola da Índia. E o desafio de fazer vinhos em lugares inóspitos parece ter contaminado de forma irreversível a alma de Damskey. Tanto que em 2011, o consultor desembarcou na tropical Costa Rica com a ideia fixa de produzir vinhos quase na linha do Equador. E é em Copey, nas belas montanhas costa-riquenhas, a quase 2 mil metros de altitude, que Damskey tem convicção de que fará bons vinhos.

"É claro que se trata de um enorme desafio. Mas sempre podemos nos adaptar às condições com as quais estamos trabalhando. Plantamos as vinhas a quase 2 mil metros de altitude. Estou confiante de que no alto temos boas condições para o desenvolvimento das videiras", garante o enólogo, que plantou 4 hectares de Sauvignon Blanc, Syrah, Grenache e Pinot Noir nas montanhas costa-riquenhas. Confiante, ainda experimenta o uso de outras cinco variedades, incluindo Cabernet Sauvignon, Merlot e Zinfandel.

A vinícola está em construção e a primeira safra deverá chegar ao mercado em, no máximo, dois anos. Enquanto isso, Damskey é puro otimismo. "Tenho experiência em viticultura de montanha e em climas tropicais. Este projeto parece ser a extensão ideal do que fizemos na Sula, na Índia. A quase 2 mil metros, as temperaturas serão provavelmente muito baixas para uma maturação completa das nossas uvas tintas, portanto, pensamos em fazer um vinho de estilo Amarone", revelou. "E tem mais: as condições de cultivo na Costa Rica não são tão diferentes assim das minhas vinhas no vale do Napa. E se nós fazemos vinho na Índia, por que não podemos fazer na Costa Rica? Além do que, o país tem uma grande presença internacional e é um nicho de mercado para vinho premium. Se o projeto der certo, estaremos falando de algo em torno de 15 mil caixas por ano", garante.


Fora dos paralelos 30º e 50º
A altitude é a razão de existir de outra vinícola situada longe, muito longe dos paralelos 30˚ e 50˚, a área considerada ideal para o cultivo da vinha. Em plena latitude 0˚, o empresário Pius Mbugua Ngugi e o enólogo James Farquharson montaram a Rift Valley Winery, localizada nas montanhas do Quênia, às margens do lago Naivasha, 75 km a noroeste de Nairobi e região mais conhecida pelos flamingos cor de rosa e pelas grandes plantações agrícolas do que pela produção de vinhos. Nada que assuste a dupla.

"Estamos praticamente na linha do Equador, a uma grande altura. Isso faz com que o crescimento das uvas seja muito diferente de lugares como França ou África do Sul. E praticamente não há literatura sobre a produção de vinho em contexto semelhante, portanto, temos, o tempo todo, que nos adaptarmos. E inovarmos", diz Farquharson. O vinho produzido se chama Leleshwa. Tem nas versões branco, rosado e tinto. Sobre a qualidade da bebida, o enólogo é direto e franco: "Nunca faremos um Grand Cru ao estilo francês. Aqui nos mantemos simples, sempre respeitando os fundamentos básicos da produção de vinho", explica.

A produção atual é de 80 mil garrafas por ano. Mas Ngugi vê um futuro promissor para o empreendimento. "Em 10 anos, espero estar produzindo três milhões de garrafas. Além dos turistas, que têm muita curiosidade em provar um vinho queniano, a classe média do país abraçou a ideia de um produto local. E, em comparação com os vinhos do Chile e da África do Sul, relativamente da mesma qualidade, ganhamos no preço, pois pagamos menos impostos", explica o empresário.

Na Bolívia, as vinhas ficam entre 1.800 e 2.500 metros de altitude. E o discurso em relação à qualidade dos vinhos é o mesmo. Em Tarija, onde está concentrado o grosso da produção de vinho boliviano, Nelson Sfarcich, enólogo da Campos de Solana, uma das principais vinícolas bolivianas, não vê nenhuma desvantagem em fazer vinhos entre os paralelos 21 e 23, portanto, bem longe da faixa considerada ideal para a viticultura. "Estamos em Santa Ana, a poucos quilômetros da cidade de Tarija e a 1.850 metros de altura. Aqui temos uma inigualável exposição ao sol da manhã e da tarde, o que gera ótimas condições para o manejo da vinha e nos permite elaborar vinhos de grande qualidade, frutados, expressivos e ricos em antioxidantes", garante Sfarcich.


Pouca latitude, muita altitude, compensa?
Para esses produtores, o fato de estarem em uma latitude desfavorável é compensado pelas grandes altitudes onde estão plantadas as vinhas. O clima equatorial, com temperaturas elevadas o ano inteiro e altíssima umidade seria, na opinião desses produtores, amenizados com o frio das noites no alto das montanhas onde estão plantadas as vinhas. "No nível do mar seria impossível fazer o que realizamos aqui", admite James Farquharson, da Leleshwa. Mas até que ponto plantar uva alguns metros acima pode compensar uma maior proximidade da linha do Equador? Será esse um caminho para expandir a viticultura de forma consistente e de qualidade mesmo muito além dos paralelos 30 e 50?

Para David Baverstock, australiano radicado em Portugal e enólogo-chefe do Esporão, a coisa não é bem assim. "Em um lugar mais alto, a amplitude térmica é maior, o que favorece uma maturação mais longa das uvas, e isso é muito positivo. Por isso mesmo é que temos buscado vinhas em Portalegre, uma região com montanhas e mais fria aqui do Alentejo. Mas, em casos extremos, como uma viticultura em um clima puramente equatorial, acho difícil que mesmo uma grande altitude possa compensar as dificuldades provocadas pelo calor e pela luminosidade em excesso", analisa.

O crítico de vinhos, Rui Falcão corrobora a opinião de Baverstock. Para ele, uma viticultura de montanha ajuda onde a produção de vinhos é viável. Mas não serve como atenuante em casos extremos. "Eles podem até fazer vinhos na linha do Equador. Mas daí a serem produtos de alta qualidade, acho muito pouco provável", acredita.

Um simpósio realizado em 2007, na Califórnia, com o apoio da Universidade de Davis, investigou os efeitos da viticultura em altitude. No estudo, não foram levados em conta casos extremos, como os do Quênia e de Costa Rica. Mas apenas analisadas as vantagens e desvantagens de plantar vinhas em cima dos morros. E embora com a ressalva de que muita investigação ainda é necessária, o estudo chegou a conclusões interessantes.

Um dos principais benefícios apontados é justamente a amplitude térmica, proporcionada por noites mais frias do que as registradas em lugares mais baixos. Uvas plantadas em altitude também apresentam uma melhor maturação fenólica, um nível maior de taninos e antocianinas, além de uma maciez maior em boca, causada por uma melhor maturação dos taninos. O estudo também concluiu que as vinhas plantadas em altitude têm um ciclo vegetativo menor, mas, graças à alta luminosidade e à maior incidência de raios UV, apresentam taxas maiores de fotossíntese. Em compensação, entre as desvantagens estão um risco maior de geadas, tempestades e ventos, que podem comprometer a colheita, erosão do solo, e altos custos de implementação e manutenção.


Na prática
Para Thibaut Delmotte, enólogo da Colomé, vinícola argentina de Salta, referência mundial em viticultura em altitude e que possui as mais altas vinhas do mundo, muito do que foi revelado no estudo de fato corresponde à realidade cotidiana com que lida no campo. Para ele, as principais vantagens de uma viticultura em altitude são as noites frias, que possibilitam uma maior acidez e, consequentemente, proporcionam elegância ao vinho; o clima seco, que garante uma menor ocorrência de doenças; e a maior incidência de raios UV, que permite uma completa maturação das uvas, além de agregar ao vinho cor, estrutura e corpo. Entre as desvantagens, Delmotte cita a logística como a mais desafiadora, e ressalta que um álcool mais elevado também vem no pacote da viticultura em altitude.

"A Colomé está situada quase sobre o trópico de Capricórnio. Nessa latitude e ao nível do mar, o calor é muito intenso, pode chegar aos 50ºC, e a umidade é muito elevada, até 2.000 mm de chuva por ano: são condições muito desfavoráveis à viticultura. Por isso, nessa latitude, é necessário buscar um microclima mais propício para a vinha. Por isso se plantou nos vales Calchaquíes: com montanha a leste e a oeste, estamos protegidos da chuva, só chove de 100 a 150 mm por ano, entre janeiro e fevereiro. Ademais, a altura (1.600 a 3.100 metros nos vales) permite uma temperatura razoável de dia (nunca superior a 35oC na época da maturação), a qual permite não 'queimar' os aromas frutados da uva, e uma temperatura baixa à noite (ao redor de 15ºC na época da maturação). Essa amplitude térmica permite manter o frescor da uva. E também graças ao clima seco e às noites frescas temos muito poucas enfermidades nas vinhas", explica.

"Uma das grandes vantagens da viticultura em altura é a maior radiação de raios UV: quanto mais alto vamos, mais UV temos. A uva reage como nós e, para se proteger desses raios, produz uma pele mais grossa e escura. Para a uva tinta, a pele é a chave, porque dá a cor, a intensidade aromática e a estrutura do vinho. Quanto mais pele temos, mais cor e concentração temos no vinho. Isso combinado com o frescor da noite, dá vinhos potentes e concentrados, mas elegantes ao mesmo tempo. A intensidade do sol e dos raios UV, combinada com um bom manejo da irrigação, permite obter uma maturação fenólica ótima. Também, ao mesmo tempo, otimiza a fotossíntese, que nos dá um vinho com mais álcool", finaliza Thibaut.

Estudo mostra que vinhas de altura podem conseguir melhor maturação fenólica devido à grande amplitude térmica


No Brasil
O Brasil também tem exemplos de viticultura em altitude. Em Santa Catarina, o número de produtores que subiram a serra para plantar uvas aumentou consideravelmente nos últimos anos. Assim como a qualidade do que tem sido produzido. Até o nome "Vinhos de Altitude" vem sendo usado para determinar, de forma genérica, os vinhos que saem das montanhas catarinenses. Olavo Gaioli, da vinícola Abreu Garcia, explica as vantagens desse tipo de viticultura.

"A radiação solar para essas regiões de latitudes médias, 25° Sul, é influenciada por camadas atmosféricas com menor espessura em relação às regiões de maiores latitudes e tropicais. O sol posiciona-se também, durante o verão, em posição mais elevada nos meses de maturação das uvas. Essa situação proporciona aos vinhedos uma radiação solar com maior intensidade e com uma qualidade de raios, considerada importante à maturação das uvas. A diminuição da espessura da camada atmosférica proporciona um aumento da incidência da radiação solar, com um comprimento de onda menor que a da luz visível e maior que a dos raios-X, de 380 até 1,0 nanômetros. Essa faixa de radiação solar de ondas curtas possui alta energia e provoca reação nas plantas, induzindo a videira a criar mecanismos próprios de defesa fazendo com que ela aumente a intensidade da cor de seus tecidos, principalmente, na coloração da casca da uva. Nesse caso, as bagas das uvas acumulam maior quantidade de antocianinas e taninos, resultando em vinhos de cor mais intensa e com altos teores de polifenóis, com destaque ao resveratrol e as proantocianidinas, compostos que apresentam efeitos benéficos à saúde humana na proteção de doenças coronárias, propriedades anti-inflamatórias e anticancerígenas", afirma.

"A temperatura é influenciada indiretamente pela altitude local, reduzindo-a 0,6 °C para cada 100 metros. A 1.000 metros de altitude em relação ao nível do mar, a redução da temperatura será de aproximadamente 6°C. Essa redução da temperatura provoca um aumento dos ciclos vegetativo e reprodutivo da videira, proporcionando um maior acúmulo de energia pelo maior tempo de exposição à radiação solar. O resultado é um aumento no período de maturação das uvas. Esse efeito proporciona um acúmulo de sólidos solúveis totais em ótimos níveis, o que permite obter vinhos de teor alcoólico desejáveis, ao gosto da maioria dos enólogos e enófilos e, adequadamente, sem o uso da chaptalização", garante Gaioli.

Sobre a serra catarinense de uma forma específica, Gaioli vende bem o peixe da região. "Aqui o clima sofre a influência indireta do relevo e das altitudes ao leste. As massas de ar úmido provenientes do oceano Atlântico são forçadas para as altitudes de até 1.800 metros pela cadeia de montanhas da Serra Geral, disposta no sentido norte-sul, provocando a precipitação dessa umidade antes de atingir as regiões localizadas no contraforte ao oeste da cadeia de montanhas. Essa dinâmica provoca indiretamente menos dias com precipitação pluviométrica, e menor disponibilidade hídrica, favorecendo a concentração de sólidos solúveis, gerando uvas mais sadias e, consequentemente, vinhos de melhor qualidade", ensina.

Santa Catarina é o estado com os vinhedos de maior altitude no Brasil

Ser vivo especializado em adaptar-se às mais improváveis condições, o homem foi, graças a essa habilidade, sobrevivendo, espalhando-se e evoluindo através dos tempos. Portanto, nada mais provável que experiências extremas como as do Quênia, Costa Rica e Bolívia sejam, aos poucos, replicadas em diferentes sítios e condições. Portanto, onde houver uma montanha mais alta e mínimas condições de cultivo da uva, mais dia, menos dia poderá aparecer alguém com meia dúzia de castas na bagagem, algum dinheiro para investir e muita vontade para fazer.


Fonte: http://revistaadega.uol.com.br (Alexandre Lalas) 

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