terça-feira, 2 de abril de 2013

O vinho de Tutancâmon


em 1922, da tumba de Tutancâmon, 11º faraó da XVIII Dinastia do Novo Império, abriu diversas portas para os cientistas estudarem inúmeros aspectos da história egípcia, desvendando alguns mistérios e trazendo à tona detalhes da vida na época. Um desses detalhes foi a vitivinicultura dos primórdios da humanidade.

Em 4 de novembro de 1922, o arqueólogo britânico Howard Carter encontrou o túmulo desse jovem faraó, que assumiu o trono com 12 anos e reinou por apenas nove, morrendo precocemente – acredita-se, depois de muita pesquisa, que por malária. Essa descoberta foi considerada uma das mais importantes, já que a tumba estava intacta – lembremos que ladrões saquearam os principais sítios arqueológicos egípcios durante séculos a fio para pegar os tesouros dos grandes reis, restando pouquíssimos lugares intocados. Então, mesmo Tutancâmon sendo um rei “modesto”, o que foi encontrado em seu túmulo deu margem para pesquisas que responderam diversas perguntas sobre essa época da humanidade.

Algumas das primeiras coisas encontradas na tumba foram vasos e ânforas, que deram testemunho de como a viticultura já era organizada no Egito. Hieróglifos revelam que terras denominadas “pomares de vinhas” eram cultivadas em Fayum (130 km ao sudeste do Cairo) e também no delta do Nilo. Interessante notar que o faraó possuía seu próprio vinhedo, cuja produção era usada nos ritos dos funerais, já que o vinho, além de estar à mesa, também estava no culto aos deuses, e servia apenas ao soberano e seus convivas.


Como na Borgonha

Se você acha que o fato de cada vinhedo possuir um nome é um coisa dos franceses da Borgonha – que herdaram isso dos romanos –, está enganado. Essa prática vem de muito tempo antes. Assim como os vinhedos borgonheses hoje, os melhores terroirs egípcios recebiam um nome específico. A vinha do faraó Djoser, da III Dinastia do Antigo Império, chamava-se “Seja louvado Hórus que está no limiar dos céus”. Então, tudo sempre era voltado à adoração do deus Osíris (pai de Hórus), que estava ligado à ressurreição e ao julgamento dos mortos. O vinho feito nesse vinhedo recebia o nome de “bebida de Hórus”, que ficava à disposição para a degustação dos faraós mortos, em diversas ânforas, enquanto eles esperavam a nova vida.

Estudos também mapearam alguns vinhos egípcios que ficaram famosos como o taniótico, um branco doce untuoso, o Kan-Komet, que era feito para Ramsés III (entre 1198 e 1166 a.C.), e o mareótico, um branco doce e suave apreciado por Cleópatra.


Vinhos safrados

Mais incrível ainda é ver que as 26 ânforas encontradas com Tutancâmon tinham a indicação do ano da safra, assim como das parcelas dos vinhedos de onde vieram as uvas, do proprietário dos vinhedos e do enólogo. Em dois jarros havia a inscrição: “Quarto ano. Vinho de muito boa qualidade da propriedade de Aton nas margens do rio Ocidental. Enólogo: Ramose”.

Depois dessas descobertas, um mistério ainda ficou no ar. Qual a cor do vinho do faraó? Somente em 2004, com novas pesquisas é que se pôde analisar melhor os resquícios e deduziu-se que havia três tipos de vinho: tinto, branco e fortificado. A presença de vinho branco surpreendeu os pesquisadores, que criam que esse tipo só viria surgir muito tempo (cerca de 1.500 anos) depois.

A verdade é que a tumba de Tutancâmon não para de ser analisada e quanto mais as pesquisas científicas se desenvolvem, mais mistérios ela revela.


Fonte: por Arnaldo Grizzo - http://revistaadega.uol.com.br

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