quarta-feira, 20 de março de 2013

O vinho doce mais famoso do mundo já foi sul-africano


Há mitos que se perdem com o tempo. Atualmente, quando falamos em vinhos doces, logo lembramos do Château d’Yquem. Contudo, poucos séculos atrás, por volta de 1700, um dos vinhos de sobremesa mais celebrados do mundo era sul-africano. Isso mesmo, da terra que hoje é famosa pelo Pinotage.

Na terra do Apartheid existiu (teoricamente ainda existe) um vinho que foi um dos preferidos de grandes governantes europeus (entre eles Napoleão – que o bebia até mesmo quando estava em seu exílio em Santa Helena) e personalidades importantes dos séculos XVIII e XIX, como Baudelaire, Charles Dickens e Alexandre Dumas, por exemplo. O Constantia, um licoroso elaborado a partir de uvas Moscatel – lá chamadas de Muscat Blanc à Petits Grains ou Muscat de Frontignan.

A história desse vinho começa em 1679, quando Simon Van der Stel é nomeado comandante da colônia holandesa no Cabo pela respeitada Companhia das Índias Orientais. Diz-se que ele tentou fazer daquele trecho de terra, em Stellenbosch, um lugar próspero que lembrasse a cidade de Amsterdã. Ele construiu avenidas plantou arvores e também vinhedos.

Apenas 20 anos antes, Jan van Riebeeck, que tinha trazido as primeiras mudas de videiras para o Cabo, havia produzido o primeiro vinho sul-africano com as vinhas lá plantadas e, em pouco tempo, percebeu-se que o terroir dali poderia dar bons frutos. Van der Stel batizou o local como Constantia (acredita-se que em homenagem ao um navio holandês do qual ele havia feito parte da tripulação) e começou a produzir vinhos brancos, tintos e doces.

Van der Stel, contudo, morreu em 1712, e a propriedade acabou dividida em três partes, sendo que duas produziam o vinho: Groot Constantia e Klein Constantia – a mais renomada. Em 1733, o dono desta última comprou a Groot e as reunificou. Mas ele morreria dez anos depois.

Seu vinho doce, contudo, ganhou fama, creditada à limpeza das barricas, cubas e prensas, além do trabalho impecável na vinha. Diz-se que escravos eram enviados às vinhas diariamente para remover qualquer minúsculo inseto que estivesse sobre a planta, evitando, assim, as doenças.

Na virada dos séculos XVIII para XIX, o Constantia era conhecido no mundo todo, com suas garrafas valendo peso de ouro. No entanto, com os conflitos com os ingleses no fim dos anos 1700 e início dos 1800 – que culminaria na Guerra dos Bôeres em fins do século XIX –, além da infestação de pragas como oídio e a devastadora filoxera, os vinhedos sofreram demasiadamente e, por volta de 1860, o vinho praticamente já não mais existia.

Depois de algumas décadas, os vinhedos de Groot e Klein Constantia foram retomados, mas o mito já estava perdido. Atualmente, ambas as propriedades produzem suas novas versões do Vin de Constance, mas ainda sem o mesmo prestígio de antes.


Fonte: Por Arnaldo Grizzo, http://revistaadega.uol.com.br

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