domingo, 9 de setembro de 2012

O ciclo da videira




Figura 1. A colheita


A videira plantada em climas temperados, ou seja, onde as quatro estações são bem definidas, tem seu ciclo natural: brota na primavera (setembro no hemisfério sul, abril no hemisfério norte) e perde as folhas no outono. No inverno ela entra em dormência (a videira é uma planta caducifólia, ela perde suas folhas no inverno). É nesta estação que é feita a poda, umas das mais importantes práticas durante o ciclo da videira. É nesta operação que se estipula ou que se “projeta” a quantidade de uva que cada planta irá produzir.

A poda consiste em retirar o excesso de galhos da videira e deixar estrategicamente apenas aqueles que serão produtivos dando a forma que se quer para a videira. As figuras 1 e 2 mostram os dois sistemas de condução mais usados nos vinhedos do Brasil. Durante essa fase, é feita a manutenção do vinhedo, fazendo o replantio de plantas mortas, substituição de arames e palanques de sustentação, adubação e correção do pH do solo se necessário.

Figura 2. Sistema de condução em espaldeira  (mais utilizado no mundo em vinhos de alta qualidade) -  permite maior insolação e aeração, porém com um volume de produção limitado. Fonte: Embrapa Uva e Vinho. (Ilustração A. Miele)



Figura 3. Sistema de condução latada ou pérgola (típico da Serra Gaúcha, adequado para uvas usadas na produção de suco, vinhos de mesa ou vinhos de qualidade média. Permite um maior volume de produção em detrimento da qualidade. Fonte: Embrapa Uva e Vinho. (Ilustração A. Miele)


Primavera. Os ramos começam a “estourar”, e em questão de dias a paisagem cinzenta do inverno dá lugar ao verde. Este período é chamado de ciclo vegetativo e tem uma duração de 150 a 210 dias de acordo com a região. As folhas começam a se abrir e espera-se que nenhuma intempérie venha afetar o vinhedo, como uma geada tardia ou uma chuva de granizo. Daí em diante a videira está suscetível às condições climáticas. Será necessária a inspeção diária do vinhedo para detectar a possível presença de doenças ou pragas.

Há uma dezena de doenças fúngicas que atacam a videira, e para cada infecção há um produto a aplicar. A principal doença é o míldio, que ocorre em climas quentes e úmidos, ou seja, na maioria das regiões brasileiras. Uma das principais pragas da videira são as formigas saúvas, elas dão muita dor de cabeça aos produtores porque cortam os brotos das videiras durante a noite para leva-los até seu ninho. Basta um descuido para um grande estrago acontecer. Durante esta fase é importante o controle da cobertura verde do solo. Normalmente deixa-se o solo coberto com a vegetação espontânea para evitar a erosão e melhorar sua estrutura física. Para o controle são feitas roçadas, e sob a linha é feita a capina ou o controle químico com herbicidas. A única região do Brasil onde é necessário irrigar é no Vale do São Francisco.

De acordo com o tipo de produto a ser elaborado, há variâncias nas práticas agrícolas adotadas, mas de um modo geral, para se elaborar vinhos encorpados, seja branco ou tinto são necessárias uvas bem maduras. Para isso, a videira precisa estar em um solo com boa drenagem e com pouca matéria orgânica. Uma prática indispensável para se obter este tipo de uva é a retirada das folhas na região do cacho na fase de maturação. Assim, haverá maior insolação direta e ventilação nas bagas, consequentemente um maior acúmulo de pigmentos corantes, reduzindo assim a humidade e minimizando a incidência de doenças.

Já para as uvas que serão utilizadas na produção de espumantes ou vinhos brancos aromáticos, esse procedimento é menos severo. A desfolha pode ser feita apenas em um lado da fila (onde pega sol pela manhã), desta forma, o sol escaldante da tarde não “queima” a uva branca nem destrói os aromas frescos e cítricos. Outra prática que é muito usada em vinhos de alta qualidade é a seleção de cachos quando o grão de uva começa a aparecer. Esta técnica consiste em eliminar o excesso de produção, deixando apenas um cacho de uvas por ramo, desta forma, a videira consegue acumular uma quantidade maior de açúcares nos cachos remanescentes. Esta prática quase nunca é adotada para a produção dos espumantes, já que não há o interesse na produção de uvas muito maduras.

Assim que a uva começa a amadurecer são feitas semanalmente análises dos teores de açúcares e os teores dos ácidos tartárico e málico para definir a data da colheita. Existem outros parâmetros como os teores de polifenois (cor e tanino), mas que nem sempre são levados em consideração na hora da colheita, pois tudo depende da tecnologia disponível que cada produtor dispõe. Por fim, complementa-se a análise com a degustação das bagas.

Curiosidade: Quanto maior a diferença de temperatura entre o dia e a noite, melhor é a qualidade da uva, que ganham mais açúcares, mais aromas, cor e taninos. Resumidamente, isso ocorre porque com o frio da noite, a planta transpira menos e assim, não gasta a energia produzida durante o dia através da fotossíntese.


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